terça-feira, 29 de setembro de 2020

UMA PEQUENA CRÔNICA PARA SETEMBRO

 


Ilustração: Anne-Julie Aubry 


Jacqueline Torres


    Foi que setembro chegou pela meia-noite, quem o trouxe foi uma lua alaranjada pendida à Oeste, com um laivo de riso monalísico e frio. No céu nuvens pardas se espreguiçavam sonolentas sobre as sombras que cobriam a cidade sob postes distantes, circunspectos de olhos vermelhos reparando o vazio das ruas.

    Foi que setembro chegou. O mês, que outrora o denominava como ‘mês do meu aniversário’, há muito virou “Mês de Saudades”. Denominei-o assim e assim ficou.

    E veio com uma manhã opaca, e ao contrário de agosto em que as sombras resistentes seguiam depois das cinco da manhã, setembro já abre sua janela cinza às 5h, mas vem ainda matizada de neblina distante lambendo o dorso das Serras, traz frio e ainda as vestes do inverno, e ainda os medos que atravessaram longamente o fim do verão, o outono e os frios de junho, julho e agosto. O temor que recolhe uns, expõe outros. A penitência segue. A ameaça cega e invisível que anda nas ruas, nas digitais, nos corrimãos, nos trincos, na porta dos carros, no abraço… Segue. Setembro veio severo e intuspecto.

    Setembro veio… E ao longe ouve-se a algazarra das ruas. Há quem desafie o trágico. E um carro de som tenebroso anuncia um óbito. E o número crescente da morte irrevogável marcha grave pelo país. Anda-se ligeiro. Esconde-se uns. Rezam outros. Conta-se os dias nos calendários. Os olhos cansam às varandas, às janelas espantadas. O mundo virtual enche-se de afeto, de mentiras, de escândalos, tudo igual, nada muda, apenas a morte cerrada em sua faina segue seu laborioso trabalho de causar ausências.

    Setembro tem primavera no meio do seu ventre seco e recolhido, mas a primavera está temerosa e virá disfarçada de inverno, virá e sentará na poltrona mais distante e reparará os dias enfastiados e apreensivos como se espia demoradamente uma visita desconhecida.

    Setembro. Nada mudará seu semblante onde pintei saudade num sorriso vago, e tatuei na retina as pausas de espera para as horas que compõem seus dias frios, céus cinzas, chuvas escassas e chorosas.

    Foi bem assim que setembro chegou. E eu ainda sou inverno. E o mundo assombrado ainda espera uma “primavera” que nos salve do temor do adeus.


(Pesqueira, 09/09/2020 – 17:30 – Tudo lá fora são sombras)